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Origem das emoções

Atualizado: 21 de ago. de 2022

Neste texto, vamos explorar com mais detalhes as origens das emoções e de outros estados mentais.

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Como vimos, as emoções respostas às mudanças do ambiente que, por serem significativas, demandam alguma reação. Tecnicamente, designamos essas mudanças de eventos desencadeantes das emoções.

Quando pensamos em algum evento desencadeante, pensamos em eventos externos, mas eles também podem ser internos. Qualquer tipo de mudança corporal, de pensamentos ou mesmo de outras emoções pode ser um evento que desencadeia novas emoções. Por exemplo, podemos nos sentir culpados por ter raiva da nossa tia que nos trata mal mas que também tem câncer. Podemos também ter medo que um aperto no peito signifique um infarto. E podemos também ficar frustrados quando, por preocupações com o dia seguinte, não conseguimos dormir.

Seja como for, por eventos externos ou internos, para entender como as emoções surgem é essencial compreender que elas se formam por causa da forma como enxergamos esses eventos, isto é, a maneira como os interpretamos. As mesmas condições que produzem tristeza em uma pessoa podem produzir ansiedade em uma segunda e raiva em uma terceira. Aliás, a mesma circunstância até na mesma pessoa pode causar diferentes emoções como ansiedade, raiva e tristeza em momentos diferentes. Tudo depende do significado que a pessoa está dando e do que ela está pensando sobre o evento

Esta relação é tão confiável que, ao sabermos qual é interpretação que alguém faz do evento, podemos prever qual será a sua resposta emocional. Se a pessoa está pensando "preciso conseguir dinheiro para pagar as contas até o final do mês senão estou ferrado", sabemos que ficará ansiosa, pois é um significado de perigo. Se ela pensa "não tem como eu conseguir esse dinheiro, sou um fracassado", sabemos que vai ficar triste, pois é um significado de derrota - uma perda de sua autoestima.

Relembrando o esquema simplificado para visualizar o funcionamento da emoção na nossa mente:


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Um exemplo clássico em terapia cognitiva é do amigo que não te cumprimenta. Digamos que uma pessoa encontre ao acaso um amigo e chame pelo seu nome. No entanto, o amigo continua caminhando e não a cumprimenta. O que essa pessoa sentiu? A resposta certa para essa pergunta é que depende do que ela pensou - depende de como ela viu a situação.

Ela ficará ansiosa se tiver o pensamento "Ai, será que eu fiz alguma coisa para ele estar brabo comigo?", pois o significado que ela deu para a situação é de ameaça para a relação (lembrando que perigo pode ser qualquer coisa que seja ameace algo significativo para a pessoa. Quanto mais a amizade dela for significativa, maior será o perigo).

Ela ficará com raiva se tiver o pensamento "Quem ele pensa que é para me tratar assim? Eu o cumprimentaria mesmo que eu estivesse chateada com ele. É o mínimo que ele deveria ter feito", pois nesse pensamento há um significado de injustiça.

E ela ficará triste se tiver o pensamento "Poxa, achei que ele gostasse de mim, mas aparentemente só estava fingindo interesse", pois neste pensamento há um significado de perda - uma amizade que era boa que não existe mais.

Para ilustrar esse fato, vamos pensar em um exemplo em que a pessoa sente estas três emoções e depois não sente mais nada simplesmente por mudar o que ela está pensando. Se inicialmente ela pensar que foi um grande desrespeito, ela ficará com raiva. Passando um pouco a raiva, ela pode pensar que é uma pena que seu amigo tão estimado a tenha ignorado e, assim, ficar triste. Um pouco depois ela pensa que seu amigo pode estar brabo por alguma coisa e ela começa a pensar que pode ter feito algo de errado então ela ficará ansiosa. Depois do acontecido, no entanto, essa pessoa conversa com uma amiga, que a lembra que este amigo sempre foi o tipo de pessoa distraída, especialmente quando está com algo na cabeça. Aí ela também se lembra que esse amigo tinha uma expressão de preocupado no rosto e conclui que ele deveria estar no horário de almoço, preocupado com algum problema do trabalho. Imediatamente as suas emoções amenizam e aos poucos se dissipam à medida que ela volta a lidar com as coisas do seu dia.

Perceba que, no meio dessa montanha russa de emoções, o evento desencadeante continua o mesmo. A única coisa que muda é o modo como enxergamos as coisas e para o que colocamos a nossa atenção.

Portanto, o evento pode influenciar como uma pessoa se sente, mas não o determina. Uma viagem, por exemplo, pode trazer tristeza se a pessoa pensar "nunca mais na minha vida vou poder voltar para esse lugar tão lindo". Uma separação pode trazer alegria se a pessoa pensar "finalmente estou livre para focar em mim e em tantas coisas que eu queria fazer". Uma promoção pode trazer raiva se a pessoa pensar "estou me esforçando há tanto tempo por isso e sou promovido justo agora que não me importo mais". Tudo depende da forma que a pessoa enxerga a situação.

(Para uma explicação mais detalhada de porque estruturo as origens das emoções desse jeito, clique aqui)

No texto até aqui, eu tenho exposto a teoria cognitiva das emoções, em que as emoções surgem por causa do modo como vemos o mundo - diante de uma situação, temos pensamentos que podem causar uma emoção. Coloco a explicação cognitiva para o surgimento das emoções porque, para os fins terapêuticos de regulação emocional, ela é a mais útil e a mais aplicável. Todavia, é importante levar em conta que há diversos níveis de análise que podem explicar o surgimento das emoções e que outras outros níveis podem ser mais relevantes para o momento, especialmente dependendo dos nossos fins. E mesmo que não sejam as explicações mais relevantes, ainda assim podem ser muito úteis para entender as nossas vulnerabilidades para umas ou outras emoções.

São vários os possíveis níveis de análise para a nossa vida emocional. Podemos entender o que deu origem à emoção olhando, por exemplo, para o cérebro e suas estruturas, para as mudanças no ambiente e seu contexto imediato, para a biologia do corpo e para os hormônios, para o contexto geral no momento ou para os nossos genes. Tudo depende do ponto de referência e da perspectiva que queremos adotar, se é olhando bem de perto pensando no que causou a emoção segundos antes ou se é olhando mais de longe e olhando o que causou a emoção dias atrás, anos ou até milênios antes. Portanto, divido as influências emocionais em seis diferentes níveis de análise para complementar a teoria cognitiva das emoções. Chamo esses níveis de análise de vulnerabilidade emocionais.

  • 1. Crenças

  • 2. Esquemas e crenças centrais

  • 3. Adversidades e contexto

  • 4. Humor, sobrecarga emocional e estado fisiológico

  • 5. Personalidade, temperamentos e genética

  • 6. Funcionamento cerebral e transtornos mentais

 
 
 

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André Wageck

Especialista em terapia clínica cognitiva-comportamental pelo Instituo WP. Graduado em psicologia e mestre em filosofia da mente pela Universidade Federal do Paraná

andrewageck@gmail.com

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☎ (41) 98485-8089

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©2020 por André Wageck

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